segunda-feira, 7 de dezembro de 2009


VERDES OS OLHOS

Até mesmo as mais passionais, sempre munidas de tantas intenções, impulsos e pequenas armadilhas e pequenas frases de amor, até mesmo essas mulheres teriam seus momentos de extrema ponderação e sensatez. Essas mulheres diante de certos homens, como eu diante de ti. Engraçado perceber que és tímido e eu nem tanto assim, mas quando estás presente sou eu quem ri nas horas erradas. E mesmo não sendo protagonista, és exatamente como um desses motivos de felicidade que a gente esquece ou talvez como a própria felicidade, daquele tipo que vem de assalto e a gente nem suspeita de onde. Então me esquivo, pois me disseram uma vez que em verdes muito verdes olhos não se deve confiar. Passei a imaginar bruxas e sereias com olhos iguaizinhos aos teus. Por isso, repares, não mais cometo ultrapassagens perigosas. Mantenho-me sóbria ao teu lado e ao lado dos nossos vários amigos em comum. Eles não percebem a minha cautela porque para eles não há bruxaria nenhuma, há apenas um rapaz simples baseado em sutilezas reais. Quem sabe. O fato é que nunca me tiraste o sono, no entanto, ao dormir, às vezes penso que daqui a alguns anos estaremos exatamente como agora: eu impotente de pura felicidade, consertando as próprias frases, tentando adivinhar o mistério, relutando contra as evidências, ao encontrar diante de mim um certo homem, do qual pouco ou nada sei além de verdes os olhos.

quarta-feira, 25 de novembro de 2009


ACREDITA EM MIM, MEU AMOR

Ela o queria em horizonte aberto, por una sola certeza. Tentou escrever um conto, disfarçá-lo num personagem Pedro, ela numa Júlia, porque só assim poderia discorrer à vontade sobre os dois e dizer-lhe as palavras que ela elegera cuidadosamente no dicionário, as citações e os empréstimos que fizera aos poetas, aos músicos e aos cineastas, para um futuro compartilhado, talvez o amasse agora, quem sabe por muito tempo. Estenderia o presente. Forçaria os olhos, miraria o mais distante possível, quase não enxergaria a última linha de edifícios e, por detrás, uma borda, mar e céu, o primeiro mais claro que o segundo, num tom estranho para uma simples manhã de quarta-feira. Little eyes are open, but they don't see very far, o Pedro diria, com toda a razão do mundo. Viveriam juntos um mês de descobertas longe daqui, uma praia rasa - até que Pedro anunciaria a chegada do primo do interior. Fernando, dezoito anos, muito tímido. E então o texto não passaria disto porque já se sabe, ela entraria numa outra história, por una sola certeza.

sábado, 17 de outubro de 2009


CLÍMAX

Naquela mínima faísca sazonal,
em que o verbo não se flexiona
e nada faz sentido,
é que vejo o teu rosto:
a única imagem
que eu carregaria na escuridão.

sábado, 10 de outubro de 2009


ASSALTO

Quando ele fez aquilo, lembrei-me de nunca antes ter visto homem nenhum cruzar as pernas de tal maneira. Ele cobriu os olhos com uma das mãos e pôs-se a derramar um pranto silencioso, ao qual já não cabia desespero nem revolta. Eu lhe pedi, por favor, fique à vontade. Não saberia falar outra coisa ao homem que entra em minha casa para consertar o computador e depois chora inevitável assim em meu sofá. Ao deslizar mais sereno e menos líquido a mão pelo rosto, a ponta vermelha do nariz sobressaiu em meio à cena cuja única expectadora era eu. Ele não me olhou e eu aceitei sua situação, a de um homem tão bonito nas marcas de um choro. Linhas de cabelo se grudaram escuras às bochechas. O homem é mais infantil que a mulher. Os vestígios de lágrima ainda frescos, eu sabia, foram sal na infância. Hoje pareceriam mentira. Pareceriam, se não tivesse sido ele a chorar aqui. Agora o sofá é dele. O computador é dele. Os livros, o lápis e o copo sobre a mesa são dele. As fotografias na parede também.
Eu, há cinco e perplexos minutos, minha, não poderia jamais.

segunda-feira, 28 de setembro de 2009


"love comes like surprise ice on the water"

(KOF)

sábado, 19 de setembro de 2009


PRIMEIRA TATUAGEM

Quando te encontrei, tomei meu próprio antebraço, voltei a palma da mão para cima e, naquela dobra de onde vez por outra tiram o nosso sangue, desenhei um ponto que logo se estendeu num risco até o pulso, passando sobre os azulados afluentes que tanto se destacam em pessoas magras como eu. Como nós dois. Vou fazer desse prolongamento a nossa história.

quinta-feira, 3 de setembro de 2009


"não quero ficar dando adeus
as coisas passando
eu quero é passar com elas"
(trecho de O Movimento dos Barcos, Capinan)